Entrevistas

“VALOR DA NOBREZA ESTÁ A MORRER”

414153.jpg picture by antoniosarabia

ANA MARQUES GASTÃO
PAULO SPRANGER

Entrevista con Antonio Sarabia.

Deixou a cidade do México por Lisboa. Antonio Sarabia, com algumas obras publicadas em Portugal, acaba de lançar ‘Tróia ao Entardecer’, pela mão da Casa das Letras, distinguido com o Prémio Espartaco 2008. Uma narrativa que reclama os valores dos antigos e viaja pelo mundo da mitologia grega
Antonio Sarabia é mexicano e vive há três anos na cidade de Lisboa. Acaba de escrever sobre a Grécia.Tróia ao Entardecer é o seu novo romance. Uma odisseia interior?

Todos os livros são, para mim, odisseias interiores, viagens inventadas pela escrita. Nesta obra, tentei resolver a questão do destino e da identidade. Não consegui.

Há três viagens neste livro?

Exactamente. Em primeiro lugar, de regresso à minha infância. Meu pai contava-me histórias da Ilíada e da Odisseia, por isso o livro lhe é dedicado. Parte dessa vida está perdida. Quis recuperá-la um pouco nesta narrativa. As outras duas viagens são por dentro da minha interioridade e pela mitologia. Os gregos acreditavam no destino.

E que é isso do destino?

Pergunta sem resposta. Quis saber, mas fiquei ainda com mais perguntas. Uma boa questão abre–nos mais hipóteses de escolha.

As perguntas são portas?

Claro que são.

Levam-no onde?

A um melhor enquadramento das questões. É na obscuridade que surgem esses flashes. São as perguntas que trazem a luminosidade.

O seu livro é estranhamente apresentado como um romance histórico…

Não há rasto de história neste livro que se baseia num poema, a Ilíada, atribuída a Homero. Tróia é um mito. E isto tudo parece uma brincadeira ridícula porque foi na categoria de melhor romance histórico que ganhei o prémio Espartaco de 2008. Lancei-me na procura de algo que não se pode encontrar.

Procura além da necessidade, o escritor, o artista?

Procuramos sabendo, de antemão, que não alcançamos.

O desejo comanda a busca?

De todos os artistas e escritores. A busca é a da harmonia, da perfeição, da verdade.

Uma ou múltiplas verdades?

Da Verdade!

Os vestígios dos gregos mostram na cidade, na pólis, os deuses aos seus fiéis. Há uma espiritualidade neste romance?

Uma marca da poesia. Foi por ela que comecei. Não tem a poesia espiritualidade dentro?

Talvez por isso os gregos tenham sido tão escultores quanto poetas. Porquê a narrativa?

Porque quis contar uma história. A mitologia é constituída por uma série de relatos maravilhosos com tudo o que é essencial à vida. Ajuda-nos a conhecermo-nos melhor.

O escritor é criador ou um mito?

Uma pessoa de carne de osso com determinadas faculdades, tal como os arquitectos, os pintores, os escultores. Provavelmente os criadores têm o melhor do ser humano. São gente de talentos como o carpinteiro, embora este seja mestre de um ofício. A carpintaria não é, porém, uma arte. Há muitos escritores e poucos narradores, muitos poetas e poucos Pessoas.

Escreve mais a partir da realidade ou do sonho?

Sonho acordado e a dormir. O que sonho acordado é que me leva à escrita. O real transporta-me para a imaginação. O salto dá-se no real.

Os inevitáveis Ulisses e Penélope não aparecem no romance…

Não gosto dele. A astúcia é uma qualidade que me desgosta. Admiro a audácia, a inteligência e a nobreza. Quando a Penélope, uma vez que ele não está, também não a usei como personagem.

A astúcia existiu sempre…

É uma qualidade dos políticos actuais, dos banqueiros que nos levaram a esta crise financeira mundial. O livro reflecte sobre o desaparecimento da nobreza, ela está a morrer. A astúcia é representada por Odysseus. A ideia vem d’Os Três Mosqueteiros, de Dumas: D’Artagnan representa o valor, Athos a nobreza, Porthos a força e Aramis a astúcia. No final, morrem os três. Só fica esta última. Em Tróia passa-se o mesmo. Na antiguidade, havia princípios como a honra e a nobreza. Relembre-se os cavaleiros da Távola Redonda.

Qual a personagem à qual se afeiçoou mais no seu romance?

Hector, o mais humano de todos eles e o mais corajoso. Enfrentava deuses e semideuses.

Helena é a sensualidade…

A beleza. Aí entra a poesia.

Que significa , para si, tomar Tróia de assalto?

Encontrar um destino. Aparentemente, temos diversos caminhos, mas no fundo, mesmo que nos desviemos, ele é só um.

Que diz a cultura azteca?

Que o caminho sempre se bifurca porque Deus é dual. Temos de escolher. Como se estivéssemos dentro de um labirinto.

Diario de Noticias, Lisboa, noviembre 10, 2008

Tribuna Latina

Periódico Público de Guadalajara, México

Antonio Serrano Cueto, para el Baile de los Silenos

Lina Zerón, entrevista a Antonio Sarabia

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